Autismo e Educação Escolar

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Autismo e Educação Escolar

Origem Histórica e Contexto do Autismo e da Educação Inclusiva

A compreensão histórica sobre o autismo e a educação especial é fundamental para situarmos o cenário atual da inclusão escolar. Historicamente, a trajetória das pessoas com deficiência, incluindo aquelas que hoje diagnosticamos dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA), foi marcada por longos períodos de exclusão e segregação. Durante séculos, predominou uma visão que associava a deficiência a castigos divinos ou a condições sub-humanas, o que resultava no isolamento desses indivíduos em instituições asilares ou no seu confinamento doméstico, sem qualquer perspectiva de desenvolvimento educacional ou social. Foi apenas no século XX, mais especificamente na década de 1940, que os primeiros estudos sistemáticos sobre o autismo começaram a emergir, com as publicações de Leo Kanner, em 1943, e Hans Asperger, em 1944. Kanner descreveu um grupo de crianças com características de isolamento extremo e desejo de imutabilidade, denominando o quadro de “autismo infantil precoce”, enquanto Asperger identificou padrões semelhantes, mas com maior preservação da linguagem e da capacidade cognitiva, em um estudo que ficou esquecido por décadas até ser redescoberto.

A evolução do conceito de autismo caminhou paralelamente às transformações nas políticas educacionais globais e nacionais. Se inicialmente o foco era puramente clínico e voltado para o “tratamento” ou a institucionalização, a segunda metade do século XX trouxe à tona a discussão sobre os direitos humanos e a necessidade de integração social. No entanto, é crucial distinguir os momentos históricos: passamos de uma fase de exclusão total para uma fase de segregação (escolas especiais), depois para a integração (onde o aluno deveria se adaptar à escola) e, finalmente, chegamos ao paradigma da inclusão. A inclusão, diferentemente das etapas anteriores, pressupõe que é o sistema de ensino que deve se transformar para acolher a diversidade humana, e não o contrário. Esse movimento ganhou força com documentos internacionais, como a Declaração de Salamanca em 1994, que influenciou profundamente a legislação brasileira, consolidando a ideia de que crianças com autismo têm o direito inalienável de frequentar o ensino regular, convivendo com seus pares típicos e recebendo o suporte necessário para seu aprendizado.

No Brasil, esse percurso histórico reflete-se na construção de um arcabouço legal robusto que hoje sustenta a prática pedagógica junto aos alunos com TEA. A Constituição Federal de 1988 foi um marco divisor ao estabelecer a educação como um direito de todos, sem exceção. Posteriormente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/96) e a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (2008) reforçaram que o lugar das pessoas com deficiência é na escola comum. Compreender essa história é vital para que o educador perceba que a presença de um aluno com autismo em sua sala de aula não é um favor ou uma escolha aleatória, mas o resultado de uma longa luta civilizatória pela garantia da dignidade e da cidadania plena. O autismo deixou de ser visto apenas sob a ótica da doença para ser compreendido como uma condição que impõe barreiras nas interações, as quais devem ser derrubadas pela sociedade e pela escola através de adaptações e respeito às singularidades.

Definição e Caracterização do Transtorno do Espectro Autista no Contexto Escolar

Para atuar de forma eficaz na educação escolar, é imprescindível que o educador compreenda o que é o Transtorno do Espectro Autista (TEA) para além dos estereótipos. O TEA é definido como um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta, primordialmente, duas grandes áreas: a comunicação e interação social, e o comportamento, que tende a ser restrito e repetitivo. Não se trata de uma doença que se “pega” ou que tem cura, mas de uma forma diferente de processar as informações e de estar no mundo. O termo “espectro” é utilizado justamente porque a manifestação dos sintomas varia imensamente de um indivíduo para outro. Podemos ter desde alunos com autismo que apresentam deficiência intelectual associada e ausência de fala, até aqueles com altas habilidades acadêmicas e vocabulário rebuscado, mas que enfrentam severas dificuldades para compreender as nuances das relações sociais e as regras implícitas do convívio escolar. Essa diversidade exige que a escola abandone as “receitas prontas” e invista no conhecimento individual de cada estudante.

No que tange à comunicação e interação social, as dificuldades podem se manifestar de formas sutis ou evidentes. Muitas crianças com autismo têm dificuldade em estabelecer contato visual, em compreender expressões faciais ou em iniciar e manter uma conversa. Na sala de aula, isso pode ser interpretado erroneamente como desinteresse ou falta de educação. Por exemplo, imagine uma situação em que a professora está explicando uma matéria e o aluno com TEA está olhando para o ventilador girando, sem fixar o olhar nela. Um professor despreparado pode repreender o aluno, exigindo que ele “olhe nos olhos”, o que pode gerar desconforto e ansiedade na criança. Um professor que compreende as características do autismo saberá que, para aquele aluno, olhar para o ventilador pode ser uma forma de regulação sensorial que, paradoxalmente, o ajuda a se concentrar no que está sendo dito, ou que o contato visual direto é excessivamente estimulante e doloroso para ele.

Já no âmbito dos comportamentos restritos e repetitivos, é comum observarmos a presença de estereotipias motoras (como balançar as mãos ou o corpo), apego excessivo a rotinas e interesses intensos por temas específicos. Esses comportamentos têm uma função para a pessoa com autismo, muitas vezes servindo para organizar o pensamento ou lidar com a sobrecarga sensorial. Na prática escolar, isso desafia a dinâmica tradicional. Considere um aluno que, todos os dias, precisa alinhar seus lápis em uma ordem específica de cores antes de começar a tarefa. Se um colega ou o professor mistura os lápis “para ajudar”, isso pode desencadear uma crise de desorganização emocional. O educador inclusivo, ao invés de proibir o ritual, compreende sua importância e pode até utilizá-lo como estratégia pedagógica, por exemplo, usando o interesse da criança por alinhamento para ensinar sequências lógicas ou contagem matemática.

Legislação e Direitos: O Alicerce da Inclusão Escolar

A inclusão escolar de alunos com autismo não é apenas uma questão de boa vontade pedagógica, mas um imperativo legal. O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo no que tange aos direitos das pessoas com deficiência. A Lei Brasileira de Inclusão (LBI – Lei nº 13.146/2015), também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, consolidou direitos fundamentais e criminalizou a discriminação. No contexto educacional, a legislação garante o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem do aluno com deficiência no sistema regular de ensino. Isso significa que as escolas, sejam elas públicas ou privadas, não podem recusar a matrícula de um aluno sob a alegação de não estarem preparadas ou de o aluno demandar muitos cuidados. A recusa de matrícula é crime punível com reclusão. Além disso, a lei assegura a oferta de profissionais de apoio escolar quando necessário, a adaptação de materiais e a acessibilidade em todas as suas dimensões, não apenas arquitetônica, mas também comunicacional e pedagógica.

A Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008, é outro documento norteador essencial. Ela define que o público-alvo da educação especial são os estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento (onde o autismo se inseria na época) e altas habilidades/superdotação. A política estabelece que o Atendimento Educacional Especializado (AEE) deve ser ofertado preferencialmente no contraturno escolar, nas Salas de Recursos Multifuncionais. O AEE não substitui a escolarização na sala comum; ele a complementa ou suplementa. Sua função é identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos alunos. Portanto, o aluno com autismo tem o direito de estar na sala de aula regular aprendendo os conteúdos curriculares com seus colegas e, no horário oposto, receber um atendimento focado em suas necessidades específicas, como o desenvolvimento de habilidades sociais ou o uso de comunicação alternativa.

Para ilustrar a aplicação prática desses direitos, imagine uma mãe que procura uma escola particular para matricular seu filho com autismo. A diretora da escola diz que “infelizmente não temos mais vagas para crianças de inclusão” ou que “aceitamos a matrícula, mas a família precisa contratar e pagar um mediador para ficar com ele na sala”. Ambas as situações são ilegais. A legislação proíbe a cobrança de taxas extras para alunos com deficiência e determina que a provisão de apoios é responsabilidade da instituição de ensino. O papel do gestor escolar e do professor é conhecer essas leis não apenas para evitar processos judiciais, mas para assumir a postura ética de garantidores de direitos. Quando um professor adapta uma prova, aumentando o tamanho da fonte ou permitindo que o aluno responda oralmente, ele não está “facilitando” ou dando um privilégio; ele está cumprindo a lei que exige a equiparação de oportunidades.

O Papel da Família e a Parceria Escola-Comunidade

A relação entre a família e a escola é um dos pilares mais críticos para o sucesso da inclusão de alunos com autismo. A chegada de um filho com deficiência muitas vezes rompe com as expectativas idealizadas pelos pais, desencadeando um processo de luto pelo “filho imaginado” até a aceitação e o acolhimento do “filho real”. Esse percurso emocional é complexo e singular para cada família. A escola precisa ter sensibilidade para acolher esses pais, compreendendo suas angústias, medos e, muitas vezes, sua postura defensiva, que pode ser resultado de experiências anteriores de rejeição ou fracasso escolar. A família é a fonte primária de informações sobre o aluno. Ninguém conhece melhor as particularidades, os gostos, os medos e as formas de comunicação da criança do que seus próprios pais ou responsáveis. Portanto, estabelecer uma parceria colaborativa e de confiança mútua é indispensável.

Na prática cotidiana, essa parceria se traduz em uma comunicação constante e transparente. Não basta realizar reuniões apenas para entregar boletins ou para reclamar do comportamento do aluno. É necessário criar canais de escuta ativa. Por exemplo, o uso de uma “agenda de comunicação” ou “diário de bordo” que vai e volta entre a casa e a escola pode ser uma estratégia valiosíssima. Nela, a família pode registrar como foi a noite da criança, se ela dormiu bem, se houve alguma mudança na medicação ou se algo a chateou antes de sair de casa. Se o professor lê na agenda que o aluno teve uma noite de insônia e está irritado, ele pode ajustar as demandas pedagógicas daquele dia, evitando confrontos desnecessários e propondo atividades mais relaxantes. Da mesma forma, a escola deve relatar para a família as conquistas do aluno, e não apenas as dificuldades, fortalecendo o vínculo e a autoestima dos pais.

Outro aspecto fundamental é a orientação e o suporte que a escola pode oferecer à família. Muitas vezes, os pais se sentem perdidos sobre como estimular o filho em casa ou como lidar com comportamentos desafiadores. A escola, através da equipe pedagógica e do AEE, pode orientar a família sobre a importância da rotina, da autonomia e da continuidade das estratégias utilizadas na escola. Imagine um aluno que está aprendendo a usar um sistema de comunicação por troca de figuras (PECS) na escola para pedir água ou ir ao banheiro. Se a família não utilizar o mesmo sistema em casa e continuar adivinhando o que a criança quer apenas pelo choro ou apontamento, o processo de aprendizagem será muito mais lento. A coerência entre as ações da escola e da casa potencializa o desenvolvimento do aluno. Além disso, a escola deve ser um espaço democrático que incentiva a participação da família nos conselhos escolares e na construção do Projeto Político Pedagógico (PPP), garantindo que a voz da diversidade esteja presente nas decisões institucionais.

Adaptações Curriculares e Estratégias Pedagógicas

A inclusão escolar efetiva exige que o currículo não seja uma grade fixa e imutável, mas um instrumento flexível capaz de atender às diferentes formas de aprender. As adaptações curriculares são os ajustes necessários para que o aluno com autismo possa acessar o conhecimento. Elas podem ser de pequeno porte, que estão sob a governabilidade do professor em sala de aula, ou de grande porte, que envolvem a gestão escolar e mudanças mais estruturais. No caso do autismo, as adaptações frequentemente envolvem a organização do tempo, do espaço, dos materiais e das estratégias de ensino. O planejamento pedagógico deve ser pensado a partir das potencialidades do aluno, e não apenas de suas dificuldades. É o que chamamos de Plano de Ensino Individualizado (PEI), um documento que traça metas específicas para aquele estudante, considerando seu nível atual de desenvolvimento e o currículo da sua série.

Uma das características marcantes de muitas pessoas com autismo é o pensamento visual e a necessidade de previsibilidade. Nesse sentido, o uso de recursos visuais é uma estratégia pedagógica poderosa. A estruturação da rotina diária através de quadros com imagens ou pictogramas ajuda o aluno a compreender o que vai acontecer, reduzindo a ansiedade e os comportamentos disruptivos. Por exemplo, ter na carteira do aluno ou na lousa uma sequência visual: “1. Entrada -> 2. Roda de conversa -> 3. Atividade de matemática -> 4. Lanche -> 5. Parque”. Quando uma atividade termina, o aluno pode retirar a imagem correspondente ou marcá-la como concluída. Isso dá concretude ao tempo, que é um conceito abstrato difícil para muitos autistas. Além disso, as instruções das tarefas devem ser claras, objetivas e, sempre que possível, apoiadas visualmente. Em vez de dar um comando longo verbalmente (“Abram o livro na página 10, leiam o texto e respondam às perguntas 1 a 3”), o professor pode escrever o passo a passo na lousa ou entregar um roteiro impresso para o aluno.

A adaptação de materiais e avaliações também é crucial. Para um aluno com dificuldades na motricidade fina, que não consegue escrever com lápis comum, o professor pode oferecer letras móveis, uso de tablet ou computador, ou atividades de múltipla escolha onde ele apenas marque a resposta correta. Para um aluno que tem hiperfoco em dinossauros, o professor pode utilizar esse tema para ensinar diversos conteúdos: contar dinossauros na matemática, ler textos sobre a era jurássica em português ou estudar o habitat dos dinossauros em ciências. Isso aumenta o engajamento e a motivação. É importante destacar que adaptar não significa empobrecer o currículo ou dar “menos matéria”, mas sim oferecer caminhos alternativos para que o aluno alcance os mesmos objetivos, ou objetivos ajustados à sua realidade. Se a turma está aprendendo sobre fotossíntese através de um texto complexo, o aluno com autismo pode aprender o mesmo conceito através de um esquema visual, um vídeo ou uma experiência prática com plantas, demonstrando seu aprendizado através de um desenho ou colagem.

O Ambiente Escolar e a Gestão de Comportamentos

O ambiente físico da escola pode ser um grande facilitador ou uma barreira intransponível para o aluno com autismo, dependendo de como é organizado. Muitas pessoas com TEA apresentam alterações no processamento sensorial, podendo ser hipersensíveis (sentem demais) ou hipossensíveis (sentem de menos) a estímulos como luz, som, cheiro, tato e paladar. Uma sala de aula tradicionalmente é um ambiente saturado de estímulos: muitas cores nas paredes, barulho de cadeiras arrastando, luzes fluorescentes piscando, sinal sonoro estridente para o recreio. Para um aluno autista, isso pode ser fisicamente doloroso e desorganizador, levando a crises sensoriais que muitas vezes são confundidas com “birra” ou agressividade. O professor atento deve observar quais estímulos parecem incomodar o aluno e tentar minimizá-los.

Estratégias simples podem fazer uma grande diferença na gestão do ambiente. Colocar feltro ou bolas de tênis nos pés das cadeiras reduz o ruído de arrasto. Permitir que o aluno use um boné ou óculos escuros dentro da sala pode ajudar se a luz o incomoda. Criar um “cantinho da calma” ou um espaço de refúgio dentro da sala ou da escola, onde o aluno possa ir quando se sentir sobrecarregado, é uma prática inclusiva excelente. Esse espaço deve ser neutro, com poucos estímulos visuais, talvez com almofadas ou objetos sensoriais que ajudem na autorregulação. Por exemplo, se o aluno começa a dar sinais de agitação (balançar o corpo mais forte, tapar os ouvidos), o professor pode sugerir gentilmente: “Percebo que você está cansado, gostaria de ir ao cantinho da calma por alguns minutos?”. Isso ensina o aluno a reconhecer suas próprias emoções e a buscar estratégias de enfrentamento saudáveis, em vez de explodir em uma crise.

A gestão de comportamentos desafiadores também passa pela compreensão da função do comportamento. Todo comportamento é uma forma de comunicação. Quando um aluno autista morde a própria mão, joga objetos ou grita, ele está tentando comunicar algo que não consegue expressar com palavras: pode ser dor, fome, tédio, frustração com uma tarefa muito difícil ou desconforto sensorial. O educador não deve focar apenas em punir ou extinguir o comportamento visível, mas em investigar a causa. Se o aluno grita toda vez que a sala fica muito barulhenta, a intervenção não deve ser dar uma bronca, mas sim reduzir o barulho ou oferecer um protetor auricular. Se ele joga a tarefa no chão porque não entendeu o que é para fazer, a intervenção é adaptar a tarefa e explicar de forma mais clara. A abordagem deve ser sempre positiva e preventiva, reforçando os comportamentos adequados e oferecendo suporte para que o aluno desenvolva habilidades sociais e emocionais.

Interação Social e o Combate ao Bullying

A escola é, por excelência, um espaço de socialização. Para o aluno com autismo, que tem na interação social uma de suas principais áreas de dificuldade, a escola pode ser tanto um ambiente de aprendizado rico quanto um local de isolamento e sofrimento se não houver mediação. A inclusão não acontece apenas colocando o aluno na sala; é preciso promover a convivência. Muitas crianças com autismo querem ter amigos, mas não sabem como iniciar a interação ou como manter a brincadeira. Elas podem ser diretas demais, não entender ironias ou ter interesses muito restritos, o que pode afastá-las dos colegas. O papel do professor é ser um mediador dessas relações, criando oportunidades estruturadas de interação.

O combate ao bullying é uma prioridade absoluta. Alunos com deficiência, e especialmente com autismo devido às suas peculiaridades comportamentais, são alvos frequentes de zombaria, exclusão e violência física ou psicológica. O trabalho de conscientização com a turma toda é fundamental. O professor deve abordar o tema da diversidade de forma natural e constante, não apenas em datas comemorativas. Explicar para os colegas, de forma respeitosa e adequada à faixa etária, as características do aluno com autismo ajuda a desmistificar o comportamento e a gerar empatia. Por exemplo, o professor pode explicar: “O João não gosta de barulho alto, por isso ele tapa os ouvidos quando todos falam juntos. Vamos tentar falar um de cada vez para ajudar o João a participar da conversa?”. Isso transforma a turma em parceira da inclusão.

Estratégias como o “sistema de tutoria” ou “colegas parceiros” podem ser muito eficazes. O professor pode identificar alunos da turma que demonstrem maior empatia e liderança positiva para serem pares de referência do aluno com autismo em atividades de grupo ou no recreio. Isso não significa que o colega será cuidador, mas sim um facilitador da interação. No recreio, momento que costuma ser caótico e solitário para crianças autistas, o educador pode propor brincadeiras dirigidas ou estruturadas, onde as regras são claras e a participação é guiada. Se o aluno autista gosta de correr, o professor pode organizar um pega-pega com regras visuais. Se ele gosta de jogos de tabuleiro, pode-se criar um clube de jogos no intervalo. O objetivo é garantir que o aluno com autismo não seja um “corpo estranho” na escola, mas um membro pertencente à comunidade escolar, respeitado em sua singularidade e valorizado por suas contribuições. A verdadeira inclusão acontece quando a diferença não é vista como um déficit a ser corrigido, mas como uma variação humana a ser compreendida e acolhida.

Formação Docente e a Prática Reflexiva

A complexidade do processo de inclusão escolar de alunos com TEA impõe a necessidade premente de formação continuada para os professores. A formação inicial nos cursos de licenciatura e pedagogia, muitas vezes, é generalista e insuficiente para preparar o educador para os desafios da sala de aula inclusiva. No entanto, a formação não deve ser entendida apenas como o acúmulo de cursos teóricos ou certificados, mas como um processo permanente de reflexão sobre a própria prática. O professor precisa se ver como um pesquisador em sua sala de aula, alguém que observa, registra, planeja, aplica e avalia constantemente suas intervenções. O autismo, por sua variabilidade, não permite a aplicação de fórmulas padronizadas. O que funciona para um aluno pode não funcionar para outro, exigindo do professor flexibilidade e criatividade.

A busca por conhecimento específico sobre o autismo é essencial. O professor precisa entender sobre desenvolvimento infantil, sobre as características do espectro, sobre métodos de ensino estruturado (como o TEACCH), sobre análise do comportamento (como o ABA) e sobre comunicação alternativa. Porém, mais importante do que dominar técnicas isoladas é desenvolver uma postura pedagógica inclusiva. Isso envolve a capacidade de trabalhar em equipe, trocando experiências com o professor do AEE, com a coordenação pedagógica, com profissionais da saúde (fonoaudiólogos, psicólogos) e com a família. A inclusão não se faz sozinho. O professor regente não deve carregar o peso de resolver todas as questões isoladamente; ele é parte de uma rede de apoio que deve sustentar o aluno.

Na prática, a formação em serviço, aquela que acontece no chão da escola, é muito potente. Momentos de estudo de caso nas reuniões pedagógicas, onde a equipe discute as situações reais dos alunos e pensa coletivamente em estratégias, são fundamentais. Imagine uma reunião onde os professores de diferentes disciplinas compartilham como o aluno Pedro se comporta em suas aulas. O professor de Educação Física pode relatar que Pedro participa bem quando as regras são explicadas visualmente, e essa informação pode ajudar o professor de História a adotar a mesma estratégia. A troca de saberes fortalece a equipe e beneficia o aluno. Além disso, é preciso cuidar da saúde emocional do professor. A demanda da inclusão pode ser estressante e gerar ansiedade. A escola deve oferecer espaços de escuta e suporte para seus docentes, reconhecendo que cuidar de quem ensina é essencial para garantir a qualidade do ensino. O professor inclusivo é aquele que, mesmo diante das dificuldades, não desiste do aluno, mas busca incessantemente novas formas de ensinar, acreditando na capacidade de aprender de todos os seres humanos.

Avaliação da Aprendizagem na Perspectiva Inclusiva

A avaliação é, talvez, um dos nós mais difíceis de desatar na prática da inclusão escolar. Tradicionalmente, a escola avalia de forma classificatória, comparativa e padronizada, esperando que todos os alunos aprendam as mesmas coisas, no mesmo tempo e da mesma forma. Para o aluno com autismo, esse modelo é excludente e injusto. A avaliação na perspectiva inclusiva deve ser diagnóstica, processual e formativa. Ela não deve servir para rotular o aluno como “incapaz” ou para aprovar/reprovar meramente, mas para fornecer informações sobre o processo de ensino-aprendizagem, indicando o que o aluno já sabe, o que ele está em processo de apropriação e quais barreiras precisam ser removidas. A avaliação deve focar no progresso individual do aluno em relação a ele mesmo, e não em comparação com a média da turma.

Para avaliar um aluno com TEA, é necessário diversificar os instrumentos e os critérios de avaliação. Uma prova escrita com enunciados longos e interpretação de texto complexa pode não ser a melhor forma de avaliar o conhecimento de um aluno que tem dificuldades na linguagem, mas que compreendeu o conteúdo. O professor pode utilizar observação sistemática, registros em portfólio, atividades orais, trabalhos práticos, autoavaliação e provas adaptadas. Se o objetivo é avaliar se o aluno sabe as capitais dos estados, ele pode responder ligando colunas, colando etiquetas no mapa ou falando para o professor, em vez de escrever um texto dissertativo. O importante é verificar se o objetivo pedagógico foi alcançado, respeitando o canal de expressão que o aluno domina melhor.

A avaliação deve estar alinhada ao Plano de Ensino Individualizado (PEI). Se no PEI foi definido que o objetivo para aquele bimestre em matemática era o reconhecimento dos números de 1 a 10, a avaliação deve focar nisso, mesmo que a turma esteja aprendendo multiplicação. Avaliar o aluno com base em conteúdos que não foram trabalhados ou que não estavam previstos em seu planejamento individualizado é uma forma de violência pedagógica que gera frustração e sensação de fracasso. Por exemplo, considere um aluno que tem grande dificuldade de escrita, mas excelente memória auditiva. Numa avaliação de história, o professor permite que ele grave as respostas em um gravador ou celular. Ao ouvir as respostas, o professor percebe que o aluno dominou todo o conteúdo sobre a Revolução Francesa. Se a prova fosse apenas escrita, ele teria tirado zero. A flexibilização do instrumento de avaliação revelou o real potencial do aluno. 

Portanto, a avaliação inclusiva é aquela que busca evidências de aprendizagem rompendo com as barreiras do formato, celebrando as conquistas e reorientando a prática pedagógica para os próximos passos.

 

Ficamos por aqui…

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