Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA)

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Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA)

A jornada para compreender a Comunicação Alternativa e Aumentativa, amplamente conhecida pela sigla CAA, exige um mergulho profundo na história da linguagem humana e na forma como as sociedades aprenderam a reconhecer a diversidade das formas de expressão. Para entender o papel fundamental da CAA na contemporaneidade, é essencial realizar uma trajetória retrospectiva que nos leve desde os gestos primordiais de sobrevivência até os sofisticados sistemas de síntese de voz e rastreamento ocular do século vinte e um. Historicamente, a comunicação sempre foi a ferramenta soberana de conexão social e construção de identidade. Nas comunidades ancestrais, antes mesmo da consolidação de idiomas complexos, a mímica, o apontar e as expressões faciais eram os meios pelos quais as intenções eram compartilhadas. No entanto, durante séculos, aqueles que possuíam impedimentos na fala articulada foram sistematicamente marginalizados, silenciados ou considerados intelectualmente incapazes, simplesmente porque a sociedade não oferecia canais alternativos para que seu pensamento pudesse transbordar.

O grande ponto de inflexão na trajetória da CAA ocorreu na metade do século vinte, impulsionado pelo avanço da medicina, da psicologia e das lutas por direitos civis para pessoas com deficiência. Após a Segunda Guerra Mundial, a necessidade de reintegrar veteranos com lesões cerebrais e o aumento da sobrevivência de crianças com paralisia cerebral forçaram educadores e terapeutas a buscar métodos que não dependessem exclusivamente da oralidade. Na década de mil novecentos e setenta, o surgimento do símbolo Bliss e, posteriormente, do Picture Exchange Communication System (PECS), revolucionou a autonomia de milhares de indivíduos. Atualmente, a CAA é reconhecida como um direito humano inalienável, fundamentada na premissa de que a comunicação é uma necessidade biológica e um requisito para a cidadania plena. Este curso detalha os fundamentos teóricos, as categorias de recursos e as estratégias de implementação da CAA, garantindo que o profissional e a família atuem como facilitadores de vozes, transformando o silêncio imposto em protagonismo e participação social efetiva.

O conceito de CAA e a distinção entre aumentar e alternar a fala

A Comunicação Alternativa e Aumentativa define-se como uma área da prática clínica, educacional e tecnológica que visa compensar, temporária ou permanentemente, padrões de comprometimento da fala ou da linguagem em indivíduos com dificuldades severas de comunicação expressiva. O termo técnica abrange dois conceitos complementares mas distintos que devem ser compreendidos pelo facilitador. O componente aumentativo refere-se às estratégias que são utilizadas para complementar a fala existente, tornando-a mais clara ou eficiente. Um exemplo prático de comunicação aumentativa ocorre com uma pessoa que possui fala disártrica — uma fala lenta e por vezes incompreensível devido a questões motoras — e que utiliza um cartão com o alfabeto para apontar a primeira letra de cada palavra que diz, ajudando o interlocutor a decifrar a mensagem. Nesse caso, a CAA não substitui a fala, mas a “aumenta” para garantir o sucesso do diálogo.

O componente alternativo, por sua vez, refere-se às técnicas utilizadas quando o indivíduo não possui fala funcional ou quando a oralidade é insuficiente para atender às suas necessidades básicas e sociais. Aqui, a CAA torna-se a voz principal do sujeito. Um exemplo marcante ocorre no atendimento a uma criança com autismo severo que ainda não desenvolveu a fala verbal. Através do uso de um tablet com um software de comunicação baseado em pictogramas, a criança seleciona a imagem de uma maçã e o dispositivo emite o som correspondente. Para essa criança, o sistema é a sua alternativa soberana de expressão. A eficácia da CAA reside na percepção de que a mente do indivíduo é muito mais complexa do que sua capacidade motora de articular sons. Ao oferecer um sistema alternativo, o profissional retira o teto de isolamento que a ausência de fala impõe, permitindo que a inteligência e a vontade do sujeito sejam reconhecidas pelo mundo ao redor.

A importância da CAA também se manifesta na redução de comportamentos desafiadores e crises de frustração. Muitos indivíduos que não conseguem se comunicar expressam suas necessidades através da agressividade ou do isolamento. Quando a CAA é implementada de forma técnica e ética, ela oferece uma via de escape para essa angústia. Compreender a CAA exige a aceitação do princípio da presunção de competência: devemos acreditar que o indivíduo tem algo a dizer e que nossa missão técnica é apenas encontrar o código correto para que essa mensagem seja entregue. Ao liderar esses processos, o terapeuta ou professor não está apenas ensinando a usar uma ferramenta, mas está realizando um ato político de libertação da consciência, provando que a voz humana reside na intenção e não apenas nas cordas vocais.

Categorias de recursos: comunicação sem ajuda e com ajuda

Os sistemas de CAA são tecnicamente classificados em duas grandes categorias, dependendo da necessidade de ferramentas externas para a produção da mensagem: a comunicação sem ajuda (unaided) e a comunicação com ajuda (aided). A comunicação sem ajuda utiliza apenas o próprio corpo do indivíduo como recurso. Isso inclui as expressões faciais, o olhar, os gestos manuais, a linguagem de sinais e as posturas corporais. Um exemplo cotidiano de comunicação sem ajuda é o uso de sinais manuais caseiros por uma família para indicar que é hora de comer ou dormir. Embora limitados pela necessidade de o interlocutor conhecer os sinais, esses recursos são vitais por serem instantâneos e não dependerem de baterias ou dispositivos físicos. A técnica exige que o facilitador valorize cada microgesto do indivíduo como um ato comunicativo legítimo.

A comunicação com ajuda envolve o uso de materiais ou equipamentos externos ao corpo, sendo subdividida em recursos de baixa e alta tecnologia. Os recursos de baixa tecnologia são ferramentas analógicas e físicas, como pastas de comunicação com figuras coladas com velcro, pranchas de papel plastificadas, cartões de escolhas ou cadernos de fotos. Um exemplo prático de baixa tecnologia é a prancha de comunicação instalada em um parquinho inclusivo, onde as crianças podem apontar para imagens de “balanço”, “escorregador” ou “quero brincar” para interagir com seus pares. Esses recursos são resilientes, baratos e fundamentais para ambientes onde a eletrônica não é viável, como na hora do banho ou na praia. Eles formam a base do aprendizado visual da linguagem para muitos usuários de CAA.

Já os recursos de alta tecnologia engloba dispositivos eletrônicos sofisticados, como tablets com softwares especializados (VOCA – Voice Output Communication Aids), computadores com síntese de voz e acionadores de diversos tipos. Um exemplo espetacular de alta tecnologia é o uso de sistemas de rastreamento ocular por pessoas com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Como o indivíduo perde a movimentação de todos os músculos, exceto dos olhos, o computador lê o movimento da retina e permite que ele escreva textos e navegue na internet apenas com o olhar. A técnica de escolha entre baixa e alta tecnologia não deve ser baseada no custo, mas na funcionalidade e no conforto do usuário. Um sistema robusto de CAA geralmente é híbrido: utiliza a alta tecnologia para diálogos complexos e a baixa tecnologia como segurança para situações de emergência ou falha técnica.

Símbolos e sistemas de representação visual da linguagem

O coração da CAA com ajuda reside nos sistemas de símbolos, que são a tradução visual das palavras e conceitos. Para um indivíduo que não lê ou não fala, o símbolo é a ponte para a abstração. Existem diferentes níveis de iconicidade nos sistemas de símbolos, variando desde objetos reais e fotografias até pictogramas abstratos e a própria palavra escrita. A técnica de seleção do sistema de símbolos deve respeitar o nível cognitivo e a acuidade visual do usuário. Começar com objetos reais é a estratégia indicada para indivíduos em estágios iniciais de compreensão, enquanto o uso de sistemas como o PCS (Picture Communication Symbols) ou o Arasaac permite a construção de frases complexas devido à sua vasta biblioteca de termos.

Considere a importância do ensino de verbos e conceitos abstratos através de símbolos. Enquanto a imagem de uma “bola” é facilmente compreendida (alta iconicidade), o símbolo para “querer” ou “mais” exige um processo de aprendizado mediado pelo facilitador. Um exemplo de boa prática na estruturação de pranchas de comunicação é a utilização do Vocabulário Essencial (Core Vocabulary), que prioriza as palavras que usamos oitenta por cento do tempo, como “eu”, “não”, “gostar” e “ir”. Em vez de focar apenas em substantivos como “manga” ou “carro”, o sistema técnico de CAA foca em dar ao usuário o poder de controlar o ambiente e expressar sentimentos, garantindo que ele não seja apenas um rotulador de objetos, mas um agente de conversação.

A organização visual dos símbolos também segue princípios técnicos, como a organização por categorias (comida, pessoas, ações) ou o método Fitzgerald Key, que organiza os símbolos da esquerda para a direita seguindo a estrutura gramatical (quem – faz o quê – onde). Um exemplo prático de sucesso na implementação de símbolos ocorre quando a escola inteira é sinalizada com pictogramas nas portas, banheiros e refeitório. Isso cria um ambiente de imersão linguística visual que beneficia não apenas o usuário de CAA, mas também alunos estrangeiros ou com dificuldades de aprendizagem. O símbolo não é apenas um desenho; ele é o portador de significado que permite à mente encarcerada pela falta de fala projetar seus desejos e conhecimentos no mundo social.

O papel dos parceiros de comunicação e a estratégia de Modelagem

A implementação da CAA não depende apenas do dispositivo ou dos símbolos, mas fundamentalmente da qualidade da interação com os parceiros de comunicação — pais, professores, terapeutas e colegas. Um erro técnico frequente é entregar um tablet para o indivíduo e esperar que ele comece a falar sozinho. A comunicação é uma via de mão dupla e exige que o parceiro seja um modelo ativo. A estratégia técnica mais poderosa na área é a Modelagem, também conhecida como Aided Language Stimulation. Ela consiste em o facilitador utilizar o sistema de CAA do usuário enquanto fala com ele. Se o professor diz “vamos comer”, ele deve apontar para o símbolo de “comer” na prancha do aluno simultaneamente à fala oral.

Imagine a trajetória de aprendizado de um bebê típico: ele ouve milhares de palavras antes de produzir a primeira. O usuário de CAA precisa do mesmo banho de linguagem visual. Se o parceiro de comunicação nunca utiliza os símbolos para falar com o indivíduo, a mensagem implícita que ele recebe é que aquele sistema não é uma linguagem real ou valiosa. Um exemplo prático de modelagem bem-sucedida ocorre no ambiente doméstico quando a mãe utiliza a prancha de comunicação para narrar as atividades do dia: “agora a mamãe vai lavar o prato”, apontando para “mamãe” e “lavar”. Isso ensina ao usuário onde os símbolos estão localizados e como eles se conectam para formar sentidos. A modelagem retira a pressão do “aperte aqui” e transforma a CAA em uma experiência natural e prazerosa.

Além da modelagem, o parceiro de comunicação deve dominar a técnica do tempo de espera. Diferente da fala oral, que é instantânea, a produção de uma mensagem via CAA exige tempo para o processamento motor e cognitivo. O facilitador deve aguardar pelo menos vinte segundos após fazer uma pergunta antes de intervir. Interromper precocemente o usuário ou completar a frase por ele é uma forma de microagressão que desestimula a autonomia. O bom parceiro de comunicação atua como um andaime, fornecendo o suporte necessário para que a voz do outro emerja, mas permitindo que o esforço final da escolha pertença ao usuário. O sucesso da CAA é, em última instância, o sucesso do ambiente em se tornar comunicativamente acessível e paciente.

Avaliação em CAA e a construção do perfil comunicativo

A avaliação para a implementação da CAA é um processo dinâmico, contínuo e interdisciplinar, que deve envolver fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e educadores. Diferente de uma avaliação de inteligência tradicional, a avaliação em CAA foca na funcionalidade e no perfil de habilidades do indivíduo. O objetivo técnico é realizar o “match” perfeito entre as capacidades do sujeito e as características do sistema. Isso exige a análise de competências motoras (como a pessoa acessará o recurso? através do toque, do olhar ou de um acionador de cabeça?), competências sensoriais (ela enxerga e ouve bem?) e competências linguísticas (ela compreende ordens simples? conhece as relações de causa e efeito?).

Um exemplo prático de avaliação criteriosa ocorre quando a equipe percebe que um usuário possui excelente compreensão linguística, mas coordenação motora fina muito restrita para apontar símbolos pequenos em uma pasta. A solução técnica não seria simplificar o conteúdo da comunicação, mas sim adaptar o acesso, utilizando uma prancha com símbolos maiores ou um sistema de varredura assistida. A avaliação também deve considerar os diferentes ambientes onde a pessoa circula — casa, escola, terapia, clube. Um perfil comunicativo completo descreve não apenas o que a pessoa consegue fazer hoje, mas quais são as barreiras ambientais que a impedem de ir além. O uso de protocolos validados internacionalmente garante que a escolha da tecnologia não seja baseada em “achismos”, mas em evidências de sucesso futuro.

A participação da família na avaliação é um requisito ético e técnico. São os pais que sabem quais são as palavras mais urgentes para o cotidiano do filho: “dor”, “medo”, “quero minha pelúcia”. Um sistema de CAA que ignora as prioridades da família corre o risco de ser abandonado e guardado na gaveta. A avaliação termina com a elaboração de um Plano de Comunicação que define metas de curto e longo prazo. Por exemplo, a meta inicial pode ser usar a CAA para pedir o lanche favorito, evoluindo para expressar sentimentos complexos após seis meses. A avaliação em CAA não rotula o indivíduo, mas sim abre o caminho para que ele supere suas limitações atuais, tratando a tecnologia como uma extensão evolutiva de suas possibilidades humanas.

Mitos sobre a CAA e a defesa da autonomia comunicativa

A área da Comunicação Alternativa ainda é cercada por mitos que atrasam a sua implementação e prejudicam milhares de indivíduos. O mito mais perigoso e persistente é a ideia de que o uso da CAA impede ou “preguiça” o desenvolvimento da fala oral. A ciência e as evidências clínicas demonstram exatamente o contrário: o uso de sistemas de comunicação visual e de voz sintetizada frequentemente estimula a produção oral, pois reduz a ansiedade do indivíduo e fornece um modelo auditivo constante para as palavras. A técnica da CAA não deve ser vista como uma última alternativa quando tudo falhou, mas sim como uma intervenção precoce que pavimenta o caminho para a linguagem, independentemente do prognóstico de fala futura.

Outro mito comum é a exigência de que o indivíduo possua certas habilidades pré-requisitas, como o contato visual ou a compreensão de causa e efeito, para começar a usar a CAA. Na visão contemporânea, não existem pré-requisitos para a comunicação. Se o indivíduo não entende a causa e efeito, utilizamos a própria CAA para ensinar esse conceito: quando ele aperta o símbolo de “bolha de sabão”, nós imediatamente assopramos as bolhas, criando a conexão neurológica entre o desejo e a consequência. Um exemplo de erro ético é negar a comunicação a uma criança por ela ser considerada “muito comprometida intelectualmente”. A comunicação é o motor que desenvolve a inteligência; sem ela, o potencial do indivíduo permanece oculto e atrofiado por falta de estímulo social.

A autonomia comunicativa é o objetivo supremo da CAA. Isso significa que o usuário deve ter acesso ao seu sistema vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Retirar o tablet de uma criança como punição por mau comportamento é equivalente a colocar uma fita adesiva na boca de uma criança que fala oralmente — é uma violação grave de direitos fundamentais. A ética na CAA exige que o usuário tenha o direito de dizer o que quiser, para quem quiser, no momento em que desejar, inclusive para dizer “não” ou para expressar descontentamento. Ao desconstruir esses mitos, o profissional valoriza a dignidade humana e garante que a CAA seja vista como uma ponte para a liberdade e não como um conjunto de exercícios terapêuticos isolados da vida real.

Alfabetização e CAA: o direito à leitura e escrita

Por muito tempo, acreditou-se que usuários de sistemas de símbolos na CAA não eram candidatos à alfabetização formal. No entanto, a perspectiva contemporânea defende que todos os indivíduos, independentemente de sua complexidade comunicativa, possuem o direito de aprender a ler e escrever. A escrita é a forma definitiva de autonomia: através do alfabeto, o indivíduo pode dizer palavras que não estão programadas em sua prancha de símbolos, garantindo uma expressão infinita de pensamentos. A técnica de alfabetização para usuários de CAA exige adaptações curriculares que permitam o acesso ao código escrito através de teclados adaptados, softwares de predição de palavras e letramento visual intensivo.

Considere a implementação da alfabetização para um jovem com paralisia cerebral severa. Através de um teclado virtual na tela do computador e do uso de um acionador pneumático (acionado pelo sopro), ele aprende a compor palavras letra por letra. Um exemplo de sucesso é o uso de metodologias de ensino de leitura global associadas ao reconhecimento fonêmico mediado pela tecnologia assistiva. O professor deve incentivar a escrita criativa e não apenas a cópia de palavras. A CAA e a alfabetização caminham juntas: quanto mais o indivíduo lê, mais seu vocabulário na prancha se expande; e quanto mais ele usa a prancha, mais contexto ele possui para compreender os textos. A alfabetização é o “passaporte” para o ensino superior e para o mercado de trabalho para muitos usuários de comunicação alternativa.

O desafio técnico para o educador é remover as barreiras físicas do lápis e do papel, substituindo-as por ferramentas digitais que permitam ao aluno demonstrar seu conhecimento. Um exemplo prático é o uso de livros adaptados com símbolos, onde o aluno “lê” a história apontando para as imagens e depois realiza atividades de interpretação utilizando sua prancha de comunicação. A exclusão da alfabetização condena o indivíduo a um vocabulário fixo decidido por terceiros. Ao investir no letramento, o profissional de CAA oferece ao usuário a chave da biblioteca do mundo, permitindo que ele narre sua própria história com as palavras que ele mesmo escolher, transformando a tecnologia em uma ferramenta de emancipação intelectual duradoura.

Ética e a gestão da voz alheia na programação de sistemas

A programação de um sistema de CAA — decidir quais palavras e símbolos estarão disponíveis para o usuário — é uma tarefa de alta responsabilidade ética e técnica. O facilitador atua como um curador temporário da voz de outra pessoa. Por isso, a seleção do vocabulário nunca deve ser baseada apenas na vontade do adulto, mas sim nas necessidades e na personalidade do usuário. Um sistema de CAA ético deve incluir o “vocabulário de poder”: palavras que permitam ao indivíduo recusar toques indesejados, denunciar abusos e expressar suas opiniões políticas e religiosas. O silêncio forçado por falta de uma tecla específica é uma falha técnica e moral do sistema.

Imagine a situação de um adolescente que usa CAA e está entrando na fase de descobertas sexuais e gírias juvenis. Se o seu dispositivo contém apenas símbolos infantis e palavras sobre escola e terapia, ele está sendo despojado de sua identidade geracional. A ética técnica exige que a programação acompanhe o ciclo de vida do sujeito. Um exemplo de boa conduta é envolver o próprio usuário na escolha dos símbolos e na gravação da voz sintetizada: ele prefere uma voz de criança, de adulto, com sotaque local? Essas escolhas fortalecem o sentimento de que “este aparelho sou eu falando”. A personalização é o que transforma um equipamento eletrônico em uma parte integrante da personalidade do indivíduo.

A gestão da voz alheia também envolve a proteção de dados e a privacidade. Muitos softwares de CAA gravam registros de uso para fins terapêuticos (data logging). O profissional deve garantir que esses dados sejam tratados com sigilo e que o usuário saiba que está sendo monitorado. Além disso, a ética proíbe o “ventriloquismo”: o facilitador nunca deve induzir a mão do usuário para que ele escolha o símbolo que o adulto deseja. A comunicação deve ser autêntica, mesmo que a mensagem seja um erro ou um protesto. Ao agir com honra e transparência na programação dos recursos, o especialista em CAA valoriza a singularidade do sujeito e contribui para que a tecnologia seja um espelho fiel da alma humana, garantindo que o direito de ter uma voz própria seja exercido com integridade e respeito incondicional.

A jornada da implementação e a resiliência da rede de apoio

A implementação da CAA não é um evento, mas um processo de longa duração que exige resiliência de toda a rede de apoio — família, escola e profissionais de saúde. Muitas vezes, os resultados iniciais são lentos e o desânimo pode surgir. A técnica de implementação deve ser pautada pela consistência e pela celebração das pequenas vitórias. O sucesso não é apenas o indivíduo falando frases perfeitas, mas sim o primeiro olhar intencional para um símbolo ou a primeira vez que ele consegue dizer “não” para uma comida que não gosta através do recurso. A rede de apoio deve estar alinhada: se a escola usa a CAA mas a família ignora em casa, o aprendizado entra em colapso por falta de generalização.

Um exemplo prático de suporte à implementação é a realização de grupos de pais e cuidadores para troca de experiências e dicas técnicas. Ver que outra família superou os desafios iniciais motiva a persistência. A escola deve incluir a CAA no Plano Educacional Individualizado (PEI) do aluno, garantindo que todos os professores e funcionários, incluindo o porteiro e a merendeira, saibam como interagir com o usuário. A técnica de “engenharia de ambiente” envolve espalhar recursos de comunicação por todos os espaços físicos: um cartaz de escolhas no banheiro, um menu visual na cozinha, um chaveiro de símbolos na mochila. Quanto mais o ambiente “fala” a linguagem da CAA, mais fácil é para o indivíduo internalizá-la.

A manutenção técnica dos recursos também faz parte da jornada. Baterias carregadas, pastas limpas e backups atualizados são obrigações da rede de apoio para garantir que a voz do usuário nunca seja “desligada”. O profissional de CAA atua como um mentor para essa rede, oferecendo treinamentos práticos e suporte emocional. A jornada da implementação é uma maratona de paciência e amor pela humanidade. Ao persistir diante dos obstáculos, a rede de apoio sinaliza ao indivíduo que sua presença e sua comunicação são valiosas. A CAA prova que, com o suporte correto, todos os muros do isolamento podem ser derrubados, transformando a deficiência em uma característica secundária diante da potência do encontro humano mediado pela tecnologia e pelo afeto.

Conclusão: a missão de libertar o pensamento através da voz

Ao concluirmos este percurso abrangente pelos fundamentos e práticas da Comunicação Alternativa e Aumentativa, fica evidente que esta área é muito mais do que um conjunto de técnicas e dispositivos; é um manifesto ético em defesa da dignidade humana. Percorremos desde a análise histórica do silêncio até as fronteiras da alta tecnologia assistiva e das estratégias de alfabetização, compreendendo que a excelência profissional na CAA é o resultado de um equilíbrio delicado entre o rigor científico, a sensibilidade da escuta e o compromisso inegociável com a autonomia do outro. O facilitador de CAA é o mestre que fornece a chave para que mentes brilhantes possam finalmente se libertar do cárcere da ausência de fala.

A jornada rumo à maestria na CAA exige curiosidade incessante, estudo contínuo das novas tecnologias e uma profunda crença na capacidade humana de superação. Que este curso tenha fornecido não apenas os instrumentos técnicos necessários, mas também a inspiração para que você reconheça em cada silêncio uma voz em potencial que aguarda o seu suporte para florescer. Lembre-se que cada símbolo apresentado, cada modelagem realizada e cada tempo de espera respeitado é um tijolo na construção de uma sociedade mais inclusiva, plural e justa. Valorize a integridade da comunicação alheia e nunca subestime o poder transformador de oferecer a alguém os meios para dizer “eu te amo”, “estou com dor” ou “esta é a minha ideia”.

Encerramos este ciclo reforçando que o futuro da inclusão é comunicativo e digital. O mundo necessita de profissionais e famílias que saibam orquestrar a diversidade das formas de expressão com ciência e alma. A Comunicação Alternativa é a ciência da liberdade; que ela seja o seu guia constante na construção de conexões humanas profundas e significativas. Boa jornada em sua trajetória profissional e pessoal no fascinante e vital universo da CAA!

 

Ficamos por aqui…

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Desejamos a você todo o sucesso do mundo. Até o próximo curso!

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